"O palco é um espaço
vazio a ser preenchido pela matéria humana."
sexta-feira, 12 de junho de 2015
terça-feira, 9 de junho de 2015
AINDA SOBRE TEATRO: PAIXÃO VOCAÇÃO DISCIPLINA
Conferências sobre o Teatro
O teatro foi
sempre a minha vocação. Dei ao teatro muitas horas da minha vida.
Tenho um conceito de teatro de certa forma pessoal e resistente. O teatro é a
poesia que se levanta do livro e que se faz humana. E ao fazer isso, fala e
grita, chora e se desespera.
O teatro necessita que os personagens que
aparecem em cena levem um traje de poesia e ao mesmo tempo é preciso que se
vejam seus ossos, o sangue. Hão de ser tão humanos, tão horrorosamente trágicos
e ligados à vida e ao dia com uma tal força, que lhes mostrem as traições, que
se lhes apreciem os cheiros e que lhes saiam dos lábios toda a valentia de suas
palavras cheias de amor ou de asco.
O que não pode continuar é o que
hoje sobe aos palcos levados pela mão dos seus autores. São personagens ocos,
totalmente vazios, a quem só se pode ver através do colete um relógio parado,
um osso falso ou um cocô de gato, desses que se encontram por aí. Hoje, na
Espanha, a maioria dos autores e dos atores ocupam uma zona apenas
intermediária. Escreve-se no teatro para os camarotes e não para o poleiro.
Escrever para a plateia principal é a coisa mais triste do mundo.
O público que vai
assistir fica frustrado . E o público virgem, o público ingênuo, que é o povo,
não compreende por que se fala no teatro de problemas desprezados por ele nos
pátios da sua vizinhança. Em parte os atores têm culpa. Não é que sejam más pessoas,
mas ... “Ouça, Fulano, quero que você me faça uma comédia em que eu faça... eu
mesmo. Sim, sim: eu quero fazer isso e aquilo. Quero estrear uma roupa de
primavera. Adoraria ter vinte e três anos. Não se esqueça.” E, assim, não se
pode fazer teatro. Assim, o que se faz é perpetuar uma dama jovem através dos
tempos e um galã apesar da arteriosclerose. (...)
O teatro é um dos mais
expressivos e úteis instrumentos para a edificação de um país e o barômetro que
marca sua grandeza ou a sua decadência. Um teatro sensível e bem-orientado
(...) pode mudar em poucos anos a sensibilidade do povo; e um teatro
destroçado, no qual as patas substituem as asas, pode embrutecer e adormecer
uma nação inteira.
O teatro é uma escola
de pranto e riso e uma tribuna livre onde os homens podem colocar, em
evidência, morais velhas ou equivocadas e explicar com exemplos vivos normas
eternas do coração e do sentimento do homem.
Um povo que não ajuda e
não fomenta o seu teatro, se não está morto está moribundo; como o teatro que
não colhe a pulsação social, a pulsação histórica, o drama de suas gentes e a
cor genuína de sua paisagem e de seu espírito, com riso ou com lágrimas, não
tem o direito de chamar-se teatro. Não me refiro a ninguém nem quero machucar ninguém; não falo
da realidade viva, mas sim do problema levantado sem solução.
Escuto todos
os dias, queridos amigos, falar da crise do teatro e sempre penso que o mal não
está diante dos nossos olhos, mas sim no mais escuro de sua essência: não é um
mal de flor atual, ou seja, de obra, mas sim de profunda raiz, que é em suma,
um mal de organização. (...)
O teatro deve se impor
ao público e não o público ao teatro. Para isso, autores e atores devem
revestir-se, a custa de sangue, de grande autoridade, porque um público de
teatro é como as crianças nas escolas; adora o professor sério e austero que
exige e faz justiça e enche de agulhas cruéis as cadeiras em que se sentam os
professores tímidos e aduladores que não ensinam nem deixam ensinar.
Há necessidade
de fazer isso para o bem do teatro. Há que manter atitudes dignas. O contrário
seria matar as fantasias, a imaginação e a graça do teatro, que é sempre,
sempre uma arte. Arte acima de tudo. Arte nobilíssima. E vocês, queridos atores,
artistas acima de tudo. Artistas dos pés à cabeça, já que por amor e vocação
subiram ao mundo fingido e doloroso do palco. Artistas por ocupação e
preocupação,desde o teatro mais modesto ao mais importante se deve escrever a
palavra “Arte” em salas e camarins, porque senão vamos ter que pôr a palavra
“Comércio” ou alguma outra que não me atrevo a dizer. É trabalho, disciplina,
sacrifício e amor.
Não quero dar-lhes uma
lição porque me encontro em condição de recebê-la. Minhas palavras são ditadas
pelo entusiasmo e pela segurança. Não sou um iludido. Pensei muito e com
frieza, o que penso, e, como bom andaluz, possuo o segredo da frieza porque
tenho sangue antigo. Sei que não possui a verdade aquele que diz “hoje, hoje,
hoje”, com os olhos postos nas pequenas goelas da bilheteria, mas sim o que
serenamente olha lá longe a primeira luz na alvorada do campo e diz “amanhã,
amanhã, amanhã” e sente chegar a nova vida que se derrama
sobre o mundo.
(...) Sabe
outra coisa? Na arte não se deve nunca ficar quieto nem satisfeito. Há que ter
a coragem de quebrar a cabeça contra as coisas e a vida... A cabeçada... depois
a gente vê o que acontece... Já veremos onde está o caminho . Uma coisa que
também é primordial é respeitar os próprios instintos. O dia em que se deixa de
lutar contra seus instintos, esse dia em que se deixa de lutar contra seus
instintos, nesse dia aprendemos a viver.
SOBRE O TEATRO COTIDIANO 4: COMO NA VIDA REAL
Aos que virão depois de nós
I
Eu vivo em tempos sombrios. Uma linguagem sem malícia é
sinal de estupidez, uma testa sem rugas é sinal de indiferença. Aquele que
ainda ri é porque ainda não recebeu a terrível notícia.
Que tempos são esses, quando falar sobre flores é quase um
crime. Pois significa silenciar sobre tanta injustiça? Aquele que cruza
tranqüilamente a rua já está então inacessível aos amigos que se encontram
necessitados?
É verdade: eu ainda ganho o bastante para viver. Mas
acreditem: é por acaso. Nado do que eu faço dá-me o direito de comer quando eu tenho fome.
Por acaso estou sendo poupado.
(Se a minha sorte me deixa
estou perdido!)
Dizem-me: come e bebe! Fica feliz por teres o que tens! Mas
como é que posso comer e beber, se a comida que eu como, eu tiro de quem tem
fome? Se o copo de água que eu bebo, faz falta a quem tem sede? Mas apesar
disso, eu continuo comendo e bebendo.
Eu queria ser um sábio
I
Nos livros
antigos está escrito o que é a sabedoria: Manter-se afastado dos problemas do
mundo e sem medo passar o tempo que se tem para viver na terra; Seguir seu
caminho sem violência, pagar o mal com o bem, não satisfazer os desejos, mas
esquecê-los. Sabedoria é isso! Mas eu não consigo agir assim. É verdade, eu
vivo em tempos sombrios!
II
Eu vim para
a cidade no tempo da desordem, quando a fome reinava. Eu vim para o convívio
dos homens no tempo da revolta e me revoltei ao lado deles. Assim se passou o
tempo que me foi dado viver sobre a terra. Eu comi o meu pão no meio das
batalhas, deitei-me entre os assassinos para dormir,
Fiz amor sem
muita atenção e não tive paciência com a natureza. Assim se passou o tempo que
me foi dado viver sobre a terra.
III
Vocês, que
vão emergir das ondas em que nós perecemos, pensem, quando falarem das nossas
fraquezas, nos tempos sombrios de que vocês tiveram a sorte de escapar. Nós
existíamos através da luta de classes, mudando mais seguidamente de países que
de sapatos, desesperados! quando só havia injustiça e não havia revolta. Nós sabemos:
o ódio contra a baixeza também endurece os rostos! A cólera contra a injustiça
faz a voz ficar
rouca! Infelizmente, nós, que queríamos preparar o caminho para a amizade, não
pudemos ser, nós mesmos, bons amigos. Mas vocês, quando chegar o tempo em que o
homem seja amigo do homem, pensem em nós com um pouco de compreensão.
Precisamos De Você
Aprende - lê
nos olhos, lê nos olhos - aprende a ler jornais, aprende: a verdade pensa com
tua cabeça. Faça
perguntas sem medo não te convenças sozinho mas vejas com teus olhos. Se não
descobriu por si na verdade não descobriu. Confere tudo
ponto por ponto - afinal você faz parte de tudo, também vai no barco, "aí
pagar o pato, vai pegar no leme um dia.
Aponte o
dedo, pergunta que é isso? Como foi parar aí? Por que? Você faz parte de tudo. Aprende, não
perde nada das discussões, do silêncio. Esteja sempre aprendendo por nós e por
você. Você não
será ouvinte diante da discussão, não será cogumelo de sombras e bastidores,
não será cenário para nossa ação.
Louvação da Desmemória
Boa é a
desmemória! Sem ela, como iria deixar o filho a mãe que lhe deu de mamar, que
lhe emprestou força aos membros e que o retinha para o experimentar. Ou como iria
o aluno deixar o mestre que lhe emprestou o saber? Com o saber emprestado,
cumpre ao discípulo pôr-se a caminho.
Na casa
velha os novos moradores entram; se lá estivessem ainda os que a construíram,
seria a casa pequena demais.
O forno
esquenta, e do oleiro ninguém se lembra mais. O lavrador não reconhece o pão
depois de pronto. Como
levantar-se de novo o homem de manhã, sem o esquecimento que apaga os rastros
da noite? Como iria, quem foi ao chão seis vezes, levantar-se pela sétima vez
para amanhar o pedregoso chão, para subir ao perigoso céu?
É a fraqueza
da memória que dá força à criatura humana.
(Poemas e
Canções.Trad. Geir Campos. Civilização Brasileira, 1996)
A arte,
quando é boa, é sempre entretenimento.
Todas as
artes contribuem para a maior de todas as artes, a arte de viver.
Você está
onde quer estar? Você está com a pessoa com quem quer estar? Você está fazendo
o que quer fazer? Você está querendo o que está fazendo? Ser feliz é sentir-se
bem com você mesmo!
Desconfiai
do mais trivial, na aparência singelo. E examinai, sobretudo, o que parece
habitual. Suplicamos expressamente: não aceiteis o que é de hábito como coisa
natural, pois em tempo de desordem sangrenta, de confusão organizada, de
arbitrariedade consciente, de humanidade desumanizada, nada deve parecer
natural nada deve parecer impossível de mudar.
Em vosso mundo: por que o mal é premiado e o bem não ganha nada. Quando
por sorte não é castigado?
“A esperança do Mundo”
Seria a opressão tão antiga quanto o musgo dos lagos?Não se pode evitar
o musgo dos lagos.Seria tudo o que vejo natural, e estaria eu doente, ao
desejar remover o irremovível?Li canções dos egípcios, dos homens que
construíram as pirâmides.Queixavam-se do seu fardo e perguntavam quando
terminaria a opressão. Isto há quatro mil anos.A opressão é talvez como o musgo,
inevitável.
2
Se uma criança surge diante de um carro, puxam-na para uma calçada. Não o
homem bom, a quem erguem monumentos, faz isso. Qualquer um retira a criança da
frente do carro.Mas aqui muitos estão sob o carro, e muitos passam e nada
fazem.Seria porque são tantos os que sofrem? Não se deve mais ajudá-los,
por serem tantos? Ajudam-nos menos.Também os bons passam, e continuam sendo tão
bons como eram antes de passarem.
3
Quanto mais numerosos os que sofrem, mais naturais parecem seus sofrimentos,
portanto. Quem deseja impedir que se molhem os peixes do mar?E os sofredores
mesmos partilham dessa dureza contra si e deixam que lhes falte bondade entre
si.É terrível que o homem se resigne tão facilmente com o existente, não só com
as dores alheias, mas também com as suas próprias.Todos os que meditaram sobre
o mau estado das coisas recusam-se a apelar à compaixão de uns por outros. Mas a
compaixão dos oprimidos pelos oprimidos é indispensável.Ela é a esperança do
mundo
Fontes:
sábado, 14 de fevereiro de 2015
SOBRE PAIXÃO E VOCAÇÃO 2
Conferencias sobre o Teatro
Federico Garcia Lorca
O teatro foi
sempre a minha vocação. Dei ao teatro muitas horas da minha vida.
Tenho um conceito de teatro de certa forma pessoal e resistente. O teatro é a
poesia que se levanta do livro e que se faz humana. E ao fazer isso, fala e
grita, chora e se desespera. O teatro necessita que os personagens que
aparecem em cena levem um traje de poesia e ao mesmo tempo é preciso que se
vejam seus ossos, o sangue. Hão de ser tão humanos, tão horrorosamente trágicos
e ligados à vida e ao dia com uma tal força, que lhes mostrem as traições, que
se lhes apreciem os cheiros e que lhes saiam dos lábios toda a valentia de suas
palavras cheias de amor ou de asco. O que não pode continuar é o que
hoje sobe aos palcos levados pela mão dos seus autores. São personagens ocos,
totalmente vazios, a quem só se pode ver através do colete um relógio parado,
um osso falso ou um cocô de gato, desses que se encontram por aí.
Hoje, na
Espanha, a maioria dos autores e dos atores ocupam uma zona apenas
intermediária. Escreve-se no teatro para os camarotes e não para o poleiro.
Escrever para a plateia principal é a coisa mais triste do mundo.O público que vai
assistir fica frustrado . E o público virgem, o público ingênuo, que é o povo,
não compreende por que se fala no teatro de problemas desprezados por ele nos
pátios da sua vizinhança. Em parte os atores têm culpa. Não é que sejam más pessoas,
mas ... “Ouça, Fulano, quero que você me faça uma comédia em que eu faça... eu
mesmo. Sim, sim: eu quero fazer isso e aquilo. Quero estrear uma roupa de
primavera. Adoraria ter vinte e três anos. Não se esqueça.” E, assim, não se
pode fazer teatro. Assim, o que se faz é perpetuar uma dama jovem através dos
tempos e um galã apesar da arteriosclerose. (...)
O teatro é um dos mais
expressivos e úteis instrumentos para a edificação de um país e o barômetro que
marca sua grandeza ou a sua decadência. Um teatro sensível e bem-orientado
(...) pode mudar em poucos anos a sensibilidade do povo; e um teatro
destroçado, no qual as patas substituem as asas, pode embrutecer e adormecer
uma nação inteira.
O teatro é uma escola
de pranto e riso e uma tribuna livre onde os homens podem colocar, em
evidência, morais velhas ou equivocadas e explicar com exemplos vivos normas
eternas do coração e do sentimento do homem.
Um povo que não ajuda e não fomenta o seu teatro, se não está morto está moribundo; como o teatro que não colhe a pulsação social, a pulsação histórica, o drama de suas gentes e a cor genuína de sua paisagem e de seu espírito, com riso ou com lágrimas, não tem o direito de chamar-se teatro. Não me refiro a ninguém nem quero machucar ninguém; não falo da realidade viva, mas sim do problema levantado sem solução.Escuto todos os dias, queridos amigos, falar da crise do teatro e sempre penso que o mal não está diante dos nossos olhos, mas sim no mais escuro de sua essência: não é um mal de flor atual, ou seja, de obra, mas sim de profunda raiz, que é em suma, um mal de organização. (...)
Um povo que não ajuda e não fomenta o seu teatro, se não está morto está moribundo; como o teatro que não colhe a pulsação social, a pulsação histórica, o drama de suas gentes e a cor genuína de sua paisagem e de seu espírito, com riso ou com lágrimas, não tem o direito de chamar-se teatro. Não me refiro a ninguém nem quero machucar ninguém; não falo da realidade viva, mas sim do problema levantado sem solução.Escuto todos os dias, queridos amigos, falar da crise do teatro e sempre penso que o mal não está diante dos nossos olhos, mas sim no mais escuro de sua essência: não é um mal de flor atual, ou seja, de obra, mas sim de profunda raiz, que é em suma, um mal de organização. (...)
O teatro deve se impor
ao público e não o público ao teatro. Para isso, autores e atores devem
revestir-se, a custa de sangue, de grande autoridade, porque um público de
teatro é como as crianças nas escolas; adora o professor sério e austero que
exige e faz justiça e enche de agulhas cruéis as cadeiras em que se sentam os
professores tímidos e aduladores que não ensinam nem deixam ensinar.
Há
necessidade de fazer isso para o bem do teatro. Há que manter atitudes dignas.
O contrário seria matar as fantasias, a imaginação e a graça do teatro, que é
sempre, sempre uma arte. Arte acima de tudo. Arte nobilíssima. E
vocês, queridos atores, artistas acima de tudo. Artistas dos pés à cabeça, já
que por amor e vocação subiram ao mundo fingido e doloroso do palco. Artistas
por ocupação e preocupação,desde o teatro mais modesto ao mais importante se
deve escrever a palavra “Arte” em salas e camarins, porque senão vamos ter que
pôr a palavra “Comércio” ou alguma outra que não me atrevo a dizer.
"Teatro é hierarquia, trabalho,
disciplina, sacrifício e amor."
Não quero dar-lhes uma
lição porque me encontro em condição de recebê-la. Minhas palavras são ditadas
pelo entusiasmo e pela segurança. Não sou um iludido. Pensei muito e com
frieza, o que penso, e, como bom andaluz, possuo o segredo da frieza porque
tenho sangue antigo. Sei que não possui a verdade aquele que diz “hoje, hoje,
hoje”, com os olhos postos nas pequenas goelas da bilheteria, mas sim o que
serenamente olha lá longe a primeira luz na alvorada do campo e diz “amanhã,
amanhã, amanhã” e sente chegar a nova vida que se derrama sobre o mundo.
(...) Sabe
outra coisa? Na arte não se deve nunca ficar quieto nem satisfeito. Há que ter
a coragem de quebrar a cabeça contra as coisas e a vida... A cabeçada... depois
a gente vê o que acontece... Já veremos onde está o caminho .
"Uma coisa que também é primordial é respeitar os próprios instintos. O dia em que se deixa de lutar contra seus instintos, esse dia em que se deixa de lutar contra seus instintos, nesse dia aprendemos a viver."
"Uma coisa que também é primordial é respeitar os próprios instintos. O dia em que se deixa de lutar contra seus instintos, esse dia em que se deixa de lutar contra seus instintos, nesse dia aprendemos a viver."
"Coragem para assumir sonhos e força para colocá-los
terça-feira, 30 de dezembro de 2014
Sobre o teatro cotidiano 3: a vida no palco
"Do que necessitamos de fato é de
uma arte que domine a natureza, necessitamos
de uma realidade moldada pela arte e de uma arte natural".
"Não nos podemos esquecer de que somos filhos de uma era científica. A ciência e a arte têm, de comum, o fato de que ambas existem para simplificar a vida do homem: uma, ocupada com sua subsistência material e a outra, em proporcionar-lhe uma agradável diversão.Tal como a transformação da natureza, a transformação da sociedade é um ato de libertação.
Cabe ao teatro de uma época científica transmitir o júbilo desta libertação".
SOBRE O TEATRO COTIDIANO 2
“O AMOR é A ARTE de criar algo com a juda da capacidade de outro.”
Bertholt Brecht
Brecht
criticava as disparidades sociais da época: "Quero
fazer teatro com funções sociais bem definidas. O palco deve refletir a vida
real. O público deve ser confrontado com o que se passa lá fora para refletir
como gerir melhor a sua vida", dizia.
"O pior analfabeto é o analfabeto político. Ele não ouve, não fala, nem participa dos acontecimentos políticos. Ele não sabe que o custo de vida, o preço do feijão, do peixe, da farinha, do aluguel, do sapato e do remédio dependem das decisões políticas. O analfabeto político é tão burro que se orgulha e estufa o peito dizendo que odeia a política. Não sabe o imbecil que da sua ignorância política nasce a prostituta, o menor abandonado, e o pior de todos os bandidos que é o político vigarista, pilantra, o corrupto e lacaio dos exploradores do povo.
"Nada é impossível de Mudar "
Desconfiai do mais trivial, na
aparência singelo. E examinai, sobretudo, o que parece habitual. Suplicamos
expressamente: não aceiteis o que é de hábito como coisa natural, pois em tempo
de desordem sangrenta, de confusão organizada, de arbitrariedade consciente, de
humanidade desumanizada, nada deve parecer natural nada deve parecer impossível
de mudar."
"Privatizado"
Privatizaram sua vida, seu trabalho, sua hora
de amar e seu direito de pensar. É da empresa privada o seu passo em frente,
seu pão e seu salário. E agora não contente querem privatizar o conhecimento, a
sabedoria, o pensamento, que só à humanidade pertence."
Os que lutam
"Há aqueles que lutam um dia; e por isso são muito bons; Há aqueles que lutam muitos dias; e por isso são muito bons; Há aqueles que lutam anos; e são melhores ainda; Porém há aqueles que lutam toda a vida; esses são os imprescindíveis."
"Há aqueles que lutam um dia; e por isso são muito bons; Há aqueles que lutam muitos dias; e por isso são muito bons; Há aqueles que lutam anos; e são melhores ainda; Porém há aqueles que lutam toda a vida; esses são os imprescindíveis."
Precisamos
De Você.
Aprende - lê nos olhos, lê nos olhos - aprende a ler jornais, aprende: a verdade pensa com tua cabeça.
Faça perguntas sem medo não te convenças sozinho mas vejas com teus olhos. Se não descobriu por si na verdade não descobriu.
Confere tudo ponto por ponto - afinal você faz parte de tudo, também vai no barco, "aí pagar o pato, vai pegar no leme um dia.
Aponte o dedo, pergunta que é isso? Como foi parar aí? Por que? Você faz parte de tudo.
Aprende, não perde nada das discussões, do silêncio. Esteja sempre aprendendo por nós e por você.
Você não será ouvinte diante da discussão, não será cogumelo de sombras e bastidores, não será cenário para nossa ação.
Aprende - lê nos olhos, lê nos olhos - aprende a ler jornais, aprende: a verdade pensa com tua cabeça.
Faça perguntas sem medo não te convenças sozinho mas vejas com teus olhos. Se não descobriu por si na verdade não descobriu.
Confere tudo ponto por ponto - afinal você faz parte de tudo, também vai no barco, "aí pagar o pato, vai pegar no leme um dia.
Aponte o dedo, pergunta que é isso? Como foi parar aí? Por que? Você faz parte de tudo.
Aprende, não perde nada das discussões, do silêncio. Esteja sempre aprendendo por nós e por você.
Você não será ouvinte diante da discussão, não será cogumelo de sombras e bastidores, não será cenário para nossa ação.
Se os tubarões fossem homens, eles seriam mais gentís com os peixes pequenos. Se os tubarões fossem homens, eles fariam construir resistentes caixas do mar, para os peixes pequenos com todos os tipos de alimentos dentro, tanto vegetais, quanto animais. Eles cuidariam para que as caixas tivessem água sempre renovada e adotariam todas as providências sanitárias cabíveis se por exemplo um peixinho ferisse a barbatana, imediatamente ele faria uma atadura a fim de que não moressem antes do tempo. Para que os peixinhos não ficassem tristonhos, eles dariam cá e lá uma festa aquática, pois os peixes alegres tem gosto melhor que os tristonhos.
Naturalmente também haveria escolas nas grandes caixas, nessas aulas os peixinhos aprenderiam como nadar para a guela dos tubarões. Eles aprenderiam, por exemplo a usar a geografia, a fim de encontrar os grandes tubarões, deitados preguiçosamente por aí. Aula principal seria naturalmente a formação moral dos peixinhos. Eles seriam ensinados de que o ato mais grandioso e mais belo é o sacrifício alegre de um peixinho, e que todos eles deveriam acreditar nos tubarões, sobretudo quando esses dizem que velam pelo belo futuro dos peixinhos. Se encucaria nos peixinhos que esse futuro só estaria garantido se aprendessem a obediência. Antes de tudo os peixinhos deveriam guardar-se antes de qualquer inclinação baixa, materialista, egoísta e marxista. E denunciaria imediatamente os tubarões se qualquer deles manifestasse essas inclinações.
Se os tubarões fossem homens, eles naturalmente fariam guerra entre si a fim de conquistar caixas de peixes e peixinhos estrangeiros. As guerras seriam conduzidas pelos seus próprios peixinhos. Eles ensinariam os peixinhos que, entre os peixinhos e outros tubarões existem gigantescas diferenças. Eles anunciariam que os peixinhos são reconhecidamente mudos e calam nas mais diferentes línguas, sendo assim impossível que entendam um ao outro. Cada peixinho que na guerra matasse alguns peixinhos inimigos da outra língua silenciosos, seria condecorado com uma pequena ordem das algas e receberia o título de herói.
Se os tubarões fossem homens, haveria entre eles naturalmente também uma arte, haveria belos quadros, nos quais os dentes dos tubarões seriam pintados em vistosas cores e suas guelas seriam representadas como inocentes parques de recreio, nas quais se poderia brincar magnificamente. Os teatros do fundo do mar mostrariam como os valorosos peixinhos nadam entusiasmados para as guelas dos tubarões. A música seria tão bela, tão bela, que os peixinhos sob seus acordes e a orquestra na frente, entrariam em massa para as guelas dos tubarões sonhadores e possuídos pelos mais agradáveis pensamentos. Também haveria uma religião ali.
Se os tubarões fossem homens, eles ensinariam essa religião. E só na barriga dos tubarões é que começaria verdadeiramente a vida. Ademais, se os tubarões fossem homens, também acabaria a igualdade que hoje existe entre os peixinhos, alguns deles obteriam cargos e seriam postos acima dos outros. Os que fossem um pouquinho maiores poderiam inclusive comer os menores, isso só seria agradável aos tubarões, pois eles mesmos obteriam assim mais constantemente maiores bocados para devorar. E os peixinhos maiores que deteriam os cargos valeriam pela ordem entre os peixinhos para que estes chegassem a ser, professores, oficiais, engenheiros da construção de caixas e assim por diante. Curto e grosso, só então haveria civilização no mar, se os tubarões fossem homens.
Aos que virão depois de nós
Eu vivo em tempos sombrios. Uma linguagem sem malícia é sinal de estupidez, uma
testa sem rugas é sinal de indiferença. Aquele que ainda ri é porque ainda não
recebeu a terrível notícia.
Que tempos são esses, quando falar sobre flores é quase um crime. Pois significa silenciar sobre tanta injustiça? Aquele que cruza tranqüilamente a rua já está então inacessível aos amigos que se encontram necessitados?
É verdade: eu ainda ganho o bastante para viver. Mas acreditem: é por acaso. Nado do que eu faço
Dá-me o direito de comer quando eu tenho fome.
Por acaso estou sendo poupado. (Se a minha sorte me deixa estou perdido!)
Dizem-me: come e bebe! Fica feliz por teres o que tens! Mas como é que posso comer e beber, se a comida que eu como, eu tiro de quem tem fome? Se o copo de água que eu bebo, faz falta a quem tem sede? Mas apesar disso, eu continuo comendo e bebendo.
Que tempos são esses, quando falar sobre flores é quase um crime. Pois significa silenciar sobre tanta injustiça? Aquele que cruza tranqüilamente a rua já está então inacessível aos amigos que se encontram necessitados?
É verdade: eu ainda ganho o bastante para viver. Mas acreditem: é por acaso. Nado do que eu faço
Dá-me o direito de comer quando eu tenho fome.
Por acaso estou sendo poupado. (Se a minha sorte me deixa estou perdido!)
Dizem-me: come e bebe! Fica feliz por teres o que tens! Mas como é que posso comer e beber, se a comida que eu como, eu tiro de quem tem fome? Se o copo de água que eu bebo, faz falta a quem tem sede? Mas apesar disso, eu continuo comendo e bebendo.
Fonte: Antologia Poética de Bertolt Brecht
terça-feira, 21 de outubro de 2014
Um dos discursos mais importantes registrados pela historia.
"Questões periféricas ou causas verdadeiras?"
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